Eu quero usar este esmalte!

DE SANTOS, no Festival Mirada

Fotos: Danilo Canguçu

Ao entrar na sala principal do Sesc Santos – durante o Festival Mirada, penso: ok. Mais um espetáculo pretensioso que não precisa da plateia em cima do palco; eles não conseguirão sustentar esta ideia. Estava certo? Talvez. “Savana Glacial” – espetáculo do grupo carioca Físico de Teatro – é sim pretensioso, mas é bom e é ruim; É teatro vivo: tem muitos acertos e poucos erros.

A cenografia, assinada por Mariana Ribas, ao meu ver, é muito eficiente: minimalista, metonímica e sobre rodas. Abajures, uma mesa móvel com cadeira: tudo branco. Claro que não é só isso (há elementos como flores), não é tudo branco (há um maravilhoso vermelho em cena) e não é um problema ser “pouco” – para mim, é uma solução de como o teatro deve ser: funcional, acessível e bom. Isso o grupo físico de teatro faz muito bem.

Vermelho e branco são as únicas cores presentes nos refletores idealizados por Renato Machado que são dosados e dialogam muito bem com o conjunto de elementos técnicos da montagem. Há marcações que se repetem, fixando nos espectadores aqueles ambientes sugeridos pelos desenhos de luz (um corredor, um quarto, a rua…) – isso é muito bom.

Não adianta ser ‘cabeça ou cult’ se, o principal — a mensagem — não encontra um receptor. Ou encontra e o ignora… Por fim, mas não menos importante, há luzes fluorescentes em cena. “Sim você pode me perguntar, e…?”. “E”, que elas são coloridas e criam perfeitamente as atmosferas das cenas (Valeu, Tudella – professor meu da Universidade Federal da Bahia) – tudo bem que o vermelho representa tensão, o azul um suspense e o verde nem lembro. É excelente, entretanto. Mais um ponto para o grupo carioca. Ah! tem também lustres belíssimos e assimétricos. Nada de novo, nada de mais… Legal e mais ou menos funcional. Charmoso, eu diria – não tirarei pontinhos.

Como os elementos que disse antes, a grandiosa dramaturgia gerada por Jô Bilac (que é apontado como O dramaturgo carioca da atualidade) também é assimétrica: o texto e as memórias das personagens vão e vêm; um texto não-linear. Às vezes, piadinhas “cult-contemporâneas-pós-alguma-coisa” se repetem demasiadamente, causando mini-enjoos.

Os três personagens (quatro, mas não quero virar um spoiler), porém, contracenam e se relacionam muito bem – é notável o destaque para a atriz Camila Gama, que interpreta “Ágata” (e achava eu que ela era apenas um rostinho bonito; pobre Danilo…). Renato Livera (“Michel”) e Andrezza Bittencourt (“Meg”) cumprem com suficiência os papéis das personagens – mais ou menos isso. Camila Gama, “Ágata”, roubou meu foco de atenção cada vez que pisou no palco – não só pela beleza natural mas pela capacidade de capturar a plateia na sua fala, sem grande esforço. Isso, pra mim, é que é atriz. Parabéns, querida!

Num momento de explosão cultural que o Brasil vem digerindo, é uma delícia engolir essa “bomba” chamada “Savana Glacial”. Interpretem “bomba” no melhor sentido da palavra: é impossível não sair destruído com a montagem deste novato grupo carioca. Interpretem “destruição” do jeito que vocês forem impactados por esta verdadeira obra de arte.

Ainda não entendeu o título? Procure assistir à peça.
Ainda volto para comentar mais sobre a direção do espetáculo.

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FICHA TÉCNICA

Idealização: Camila Gama e Renato Livera
Texto:
Jô Bilac
Direção:
Renato Carrera
Elenco:
Andreza Bittencourt, Camila Gama, Diogo Cardoso e Renato Livera.
Iluminação:
Renato Machado
Trilha sonora original:
Jamba
Direção de Movimento:
Lavínia Bizzotto
Cenário:
Mariana Ribas
Figurino:
Flávio Souza

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Todas as fotos estão disponíveis em: bit.ly/danilocangucu

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