Categoria: música | review | Atualizado por: Luis Coutinho
8 jul 2012Fotos de Matheus Gomide.
Mais uma iniciativa louvável da Playbook que resultou em mais um ótimo show financiado pelo público. Quem conhece um pouco do The Radio Dept. banda sueca de dream pop cujos três discos são aclamados pela crítica, sabia o quão improvável era um show deles por aqui: a banda é reclusa, avessa a entrevistas, videoclipes, turnês, festivais, e tem conflitos conhecidos com a gravadora que lança os seus discos, a Labrador Records, que no encarte da coletânea de singles “Passive – Aggressive” os classifica como “a banda mais difícil com a qual eles já lidaram”. No show que aconteceu no Beco 203 última sexta (06) a banda não abriu concessões e trouxe um setlist inusitado que fugiu dos singles, mas que foi salvo pela qualidade equilibrada de todo o material da banda.
Donos de uma discografia com apenas três discos mas uma imensa quantidade de EPs lançados regularmente, o Radio Dept. escolheu para a turnê sul-americana uma setlist que só um fã muito hardcore da banda reconheceria por completo. Foram 5 músicas do primeiro álbum, “Lesser Matters”; apenas o quase clássico “The Worst Taste in Music” do segundo álbum “Pet Grief”, 4 músicas do excelente último álbum “Clinging to a Scheme”, 2 singles que não saíram em nenhum álbum e 3 b-sides. Das três músicas presentes na trilha de Maria Antonieta, filme de Sofia Coppola, filme responsável por boa parte do sucesso da banda, a setlist deixou de fora justamente a mais conhecida, a incrível “Pulling Our Weight“, um dos únicos hits da banda, se podemos dizer assim.
Ao vivo, a banda veio desfalcada do tecladista Daniel Tjäder. Coube ao vocalista e guitarrista Johan Duncanson e ao guitarrista grandalhão Martin Larsson dividir o palco com um dos membros da equipe técnica que disparava em um Mac as bases pré-gravadas de bateria, sintetizadores e piano. Nem por isso o som parecia desfalcado, e o dream pop da banda com bastante inspiração nas várias camadas de som do shoe gaze inundou o Beco (pelo menos perto do palco), criando a atmosfera etérea e nostálgica que o Radio Dept. consegue criar tão bem em estúdio. E dá-lhe cachoeiras intermináveis de gelo seco pra ajudar no clima intimista do show – apesar de que o som ensolarado da banda talvez combinaria mais com um set acústico de dia ao céu aberto ou simplesmente com um ambiente mais intimista de fato.
Na sequência “Bus” e “1995″, apenas Johan e Martin ficaram no palco e o “duelo” das guitarras é um dos momentos em que fica claro que a prioridade da banda é garimpar a melodia mais agradável e marcante possível, seja das guitarras ou do vocal. Não é exagero dizer que o som do The Radio Dept. parece com um sonho do qual você não quer acordar ou a memória de algum momento pro qual você quer retornar: são muitas referências musicais em jogo, e todas elas parecem ter o objetivo de criar uma sensação de “conforto” musical, e os vocais delicados do tímido Johan são fundamentais nessa mistura.
Já quase no final do show, quando a banda emendou os três singles do último álbum “David”, “Heaven’s on Fire”, “Never Follow Suit”, músicas bem dançantes que flertam com o urban music, o público comovido pôde ter uma ideia de como seria o show se a banda tivesse optado por uma setlist mais fácil. Com certeza teríamos uma apresentação mais animada e menos gente teria se frustrado com o show, mas não dá pra contestar a opção deles. Me veio imediatamente o verso de “You Wanted a Hit” do LCD Soundsystem que diz “Vocês queriam um hit, mas talvez a gente não faz hits”. Pareceu o caso aqui: assim como a música do The Radio Dept. parece mais preocupada em evocar um sentimento do que soar como um hit, o show pareceu mais preocupado em criar uma atmosfera do que ter a estrutura de um show típico, o que foi bem arriscado dado o clima de “balada” de uma casa como o Beco.
Se funcionou ou não, só saberemos quando tiver corrido tempo suficiente para o show se tornar uma boa memória.
Última nota: Assim que “Lost and Found”, única música do bis, terminou de ser tocada, Johan foi surpreendido por dezenas de encartes e capas de cds e vinis surgindo do público em sua direção. Tímido como no resto do show em que se limitou a dizer “Thank you very very much” religiosamente depois de cada música, ele acrescentou um “really” no final da frase, se agachou humildemente e começou a autografar tudo que estava ali. Em pouco tempo Martin voltou ao palco e a oferta de coisas para serem autografadas aumentou: até algumas notas de 2 reais entraram no jogo. Melodia e modéstia são duas boas palavras pra definir o Radio Dept. Palavras que faltaram na banda de abertura, a porto-alegrense Lautmusik que assim como 90% das bandas nacionais, acham que uma overdose de pose e muito barulho compensam a falta de músicas que conseguem se conectar com o público (seja ao vivo seja em estúdio).
Segue abaixo a galeria de fotos do show e um vídeo de “I Don’t Like It Like This”, também gravado pelo Matheus.
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andré aloi
jornalista, vive de internet, tv-lover, viciado em 'lie to me', ama cultura pop e fã de Britney desde 1999. Futuro ganhador da mega-sena: torrará seus milhões em camisetas, livros e música.
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luis coutinho
mineiro se passando por paulistano, descobre bandas compulsivamente e troca a música do despertador todo dia. Verdadeira paixão é a engenharia, mas estuda audiovisual para agradar os pais.
2 comentários
Dudu
julho 16th, 2012 at 10:24
Análise perfeita do show The Radio Dept- que só não foi melhor pelo local escolhido. Casa Fria e desorganizada…. um curral –
E a Banda escolhida para abertura???…sem comentários…. de uma arrogância e incompetência inaudita… Os organizadores do show deveriam ter tido a sensibildiade de escolher uma Banda com mais qualidade e sinergia, respeitando o excelente trabalho do The Radio Dept. no mínimo, porque esse pessoal da Lautmusik não tinha a menor idéia do que estavam fazendo ali…. eu como portoalegrense morri de vergonha… além claro de ter detonado meus tímpanos e ter ficado com um ar estranho de sonoridades ruins na cabeça até a Brilhante Aparição do The Radio….
OUTRA questão intolerável….. Por que o atraso de 03 horas do show anunciado? Se é para aumentar o consumo de etilicos…é uma estratégia digamos desleal para o público….
Enfim precisamos de mais profissionalismo em nossas casas de espetáculo….o Público e os excelentes artistas precisam desse respeito.
Luis Coutinho
julho 16th, 2012 at 23:19
Obrigado pelo comentário e por acompanhar o blog!
No começo do blog eu martelava muito sobre atraso e filas imensas, mas parei por puro cansaço. É realmente chato ver que a situação continua. =/