Categoria: música | review | Atualizado por: Luis Coutinho
9 jul 2012Fotos de Matheus Gomide, para o aoscubos.
Saber seguir em frente é uma dádiva. E se seguir em frente sem guardar mágoa é praticamente impossível, o jeito é canalizar esse sentimento em algo produtivo. Cada um faz o que pode. Adele por exemplo ficou trilionária com seu “21″, e o Madrid , duo formado por Adriano Cintra e Marina Vello, surge como um dos melhores nomes nacionais do ano e com um disco na manga que promete dar aos dois tanta ou até mais visibilidade internacional do que tinham em suas antigas bandas, o CSS e o Bonde do Rolê. Não que a culpa pelo som mais comedido do Madrid seja das saídas tumultuadas que cada um teve de suas bandas (Adriano, por exemplo, já fazia um som parecido com uma de suas outras bandas, o Ultrasom), mas é fato, que depois de tanta briga, é inevitável que o Madrid soe como uma resposta direta ao que aconteceu.
Com um som completamente diferente, sintonizadíssimo com o que vem sendo feito na cena alternativa mundial e aparentemente aproveitando o que eles aprenderam de melhor nas fases anteriores de suas carreiras, eles se apresentaram última terça (3) na Choperia do SESC Pompeia.
Adriano foi o cérebro por trás do Cansei de ser Sexy, depois CSS, até sair da banda na metade do ano passado, e segundo o que conta no seu hipnótico blog Manda me Prender (dentre dezenas de histórias cabeludíssimas sobre o CSS que não dá pra parar de ler) também era o corpo da banda, já que era ele que tocava todos os instrumentos nas gravações de estúdio. Já Marina foi a power-girl à frente da banda-piada Bonde do Rolê, e também saiu no meio de pesados conflitos pessoais. Foi prontamente substituída, e o Bonde lança disco novo esse ano, apesar de estar perigosamente fora do timing que alçou o trio funk-nerd de Curitiba na aba do sucesso do CSS em meados de 2005 – 2007.
Adriano e Marina se conheceram em uma turnê norte-americana que suas antigas bandas fizeram juntas,e depois de ter ouvido o fruto que surge desse encontro, dá pra dizer com segurança: que bom que eles saíram de suas bandas! O lado de exímio instrumentista de Adriano foi iluminado no show enquanto ele dominava o piano de cauda do SESC Pompéia como se fosse seu. E pra quem conhecia Marina apenas pela voz esganada de “Marina Gasolina” foi uma grata surpresa ver sua linda voz cuja interpretação melancólica / sexy lembrou várias cantoras como por exemplo Alison Mosshart do The Kills e até Lana del Rey (pro bem e pro mal). Marina (que às vezes lembrava absurdamente a atriz Chloë Grace Moretz) também dominava a apresentação com uma atitude de palco adquirida ao longo de anos mas mostrada na medida certa do clima intimista do show.
Pra ganhar o jogo, os dois ótimos músicos mostrando do que são capazes (com um baterista e um guitarrista de apoio) só precisavam de boas músicas. E, uau, como são boas as músicas! Mesmo mostrando um repertório desconhecido do público (o disco só sai digitalmente hoje, dia 9) pelo menos 3 músicas (que eu não vou saber quais são) são tão boas que foram comemoradas e aplaudidas pelo público de um modo que parecia dizer “Caramba, é mesmo de vocês essa música?”. E eram.
Os únicos covers da noite ficaram por conta das escolhas acertadíssimas de “My Maudlin Career” dos escoceses do Camera Obscura, uma versão irresistível de “Destroy Everything You Touch” do Ladytron, e um cover-alfinetada de “I Fly” do CSS, presente no segundo disco “Donkey”, e que levou a música a lugares sonoros inexistentes em sua gravação original. Pode ser só um cover despretensioso, mas eu prefiro acreditar que foi o modo de Adriano para dizer “Olha como uma banda de verdade toca uma música minha” e de se declarar algo como a mosca que pousou na sopa das integrantes do CSS, e que não sairá de lá enquanto a banda existir.
Apesar do clima tenso das músicas, o show se desenvolveu num clima de show para amigos (de fato, muitos ali eram conhecidos da banda), com muitas piadas e comentários no meio da setlist, sobrando até alfinetadas explícitas aqui e ali. Uma delas foi quando o piano de Adriano pareceu soar como se fosse começar a tocar “La Bamba” e Marina rapidamente emendou dizendo numa voz de deboche que eles poderiam tocar aquela música porque “A gente é muito tropical”. A alfinetada não só atinge o Bonde do Rolê, cujo próximo disco carrega o nome vergonha alheia “Tropical / Bacanal” mas também os insossos curitibanos do Copacabana Club e seu “Tropical Splash”, e mais uma leva de gente que tenta a todo custo entrar na onda do tropical exploitation pra gringo ver, mas sem sustança alguma, como diria minha vó.
O bom é que, assim como o Madrid traz um pouco de fôlego e ar fresco para o promissor rock alternativo feito em inglês por aqui, outros artistas encontram aos poucos o caminho das pedras para a “universalidade” de seus sons, sem precisar “vender a alma” ou se afogar no desespero de serem o próximo CSS, ou numa overdose de pose que não leva a lugar nenhum se sua música não tiver força suficiente. Resta torcer para que o disco de estreia do Madrid siga os melhores caminhos possíveis e que sirva de exemplo para uma geração de músicos nacionais que não se preocupa com melodia e boa execução tanto quanto deveria.
Site do Madrid: http://wearemadrid.co.uk
Para ouvir a ótima “Till Things Fall Apart” (em link roubado do Popload)
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andré aloi
jornalista, vive de internet, tv-lover, viciado em 'lie to me', ama cultura pop e fã de Britney desde 1999. Futuro ganhador da mega-sena: torrará seus milhões em camisetas, livros e música.
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luis coutinho
mineiro se passando por paulistano, descobre bandas compulsivamente e troca a música do despertador todo dia. Verdadeira paixão é a engenharia, mas estuda audiovisual para agradar os pais.
2 comentários
NFP
julho 10th, 2012 at 21:27
Ótima dica, já começei a ouvir as musicas e to curtindo!
Marina
julho 18th, 2012 at 20:47
Super legal o seu review, só queria fazer um comentário aqui. Camila e Claudinha do Copas são amigas minhas do tempo de Curitiba, e gosto muito delas, então, ali não tinha alfinetada não, pra lado nenhum!
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