Florence + the Machine arrebata público em festival bem sucedido

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Fotos de Guilherme Assis

Em sua segunda edição, o Summer Soul Festival abocanhou um bom espaço sem muitos eventos no começo do ano, mostrou que já tem uma identidade bem definida e que tem fôlego para acontecer muitas vezes se tiver sempre o mesmo sucesso ao definir sua programação como teve nessa edição. A atração principal da noite foi o cantor havaiano Bruno Mars que, mesmo ainda no primeiro álbum, arrancou gritos femininos em uníssono do início ao fim de seu show e fez uma performance digna de um candidato a novo rei do pop. Mas foi a banda britânica Florence + the Machine que fez a apresentação com mais “alma” do dia. Considerando o nome do festival e que a banda não é necessariamente “soul”, foi um feito bem notável.

Com as discussões recorrentes (e meio desnecessárias) sobre quem substituirá o U2 como “maior” banda de rock do mundo – os candidatos são os de sempre: Coldplay, Foo Fighters, Muse… – eu me perguntei, desde que saiu o épico estratosférico “Shake It Out”, se o Florence + the Machine não pode ser um forte candidato a ocupar esse posto. Florence Welch, o furacão ruivo que comanda esse esperto híbrido entre carreira solo e banda, tem a rara soma de talento como vocalista, compositora e intérprete aliados a uma fortíssima e original imagem individual que já a tornaram uma das mais importantes “rockstars” dessa geração, por mais que isso não se reflita na tímida personalidade que vem à tona quando não está no palco.

O que também explica a carreira tão bem sucedida do Florence + the Machine desde o lançamento do álbum de estreia “Lungs” em 2009, é o modo como Florence explora e domina em suas músicas a grandiosidade e a catarse. Elas funcionam bem para um público carente desse tipo de explosão e que não quer encontrá-la nos discursos rasos e imperativos da “música de balada” ou no comprometimento ideológico necessário para a música gospel, e funcionam melhor ainda ao vivo onde a catarse é alcançada através da coletividade e da “comunhão com o próximo”.

Não é à toa que a projeção durante o show de Florence imita vitrais de uma catedral, que a harpa e o órgão sejam tão importantes em sua música, e que em “What the Water Gave Me” segunda música do show após a abertura matadora com “Only if for a night”, o público voluntariamente erguia as duas mãos em direção à Florence durante o refrão em tom religioso “Lay me down, let the only sound, be the overflow”. A aproximação da música e da atitude de Florence com essa temática transforma seu show em um culto moderno onde Florence é a ponte entre o público e uma sensação divina a ser alcançada. Algo como, me perdoem o uso do termo, um “descarrego”, inofensivo e sem vínculos ideológicos.

O público absolutamente emocionado pela figura angelical de Florence, que saltitava e girava como uma ninfa, cantava como uma diva, e falava nos intervalos entre as músicas como uma pré-adolescente empolgada, gritava trechos como “It’s hard to dance with the devil on your back, so shake him off” com a intensidade que um verso assim requer. Florence ficou visivelmente emocionada. Não falou tanto assim, mas o modo como brincou com a bandeira do Brasil durante o mega hit “Dog Days Are Over” ou que, surpreendida, deixou o microfone para que o público continuasse cantando o começo de “No Light, No Light”, disse tudo que era necessário.

A setlist impecável, passou por 5 músicas do álbum “Lungs” (incluindo a ótima surpresa “Between Two Lungs”), as 6 melhores músicas do álbum mais recente “Ceremonials” e um cover a capella emocionante de “Something’s Got a Hold On Me” de Etta James, que faleceu recentemente e que segundo Florence, é a responsável por ela estar ali. A apresentação foi consideravelmente pequena, devido aos tempos apertados que um festival impõe, mas talvez esse lado também tenha sido bom para que o arrebatamento do público durasse ininterrupto do começo ao fim do show.

É bom deixar claro que a produtora que quiser trazer novamente para São Paulo o fenômeno Florence + the Machine ainda na turnê desse álbum certamente não irá se arrepender. Das mais de 20 mil pessoas que prestigiaram o Summer Soul Festival desse ano ficou absolutamente claro que pelo menos 5 mil estavam ali somente para ver Florence e a veriam de novo sem pensar duas vezes. A menina ruiva que nos confunde com sua mistura de maturidade, inocência, força e fragilidade tem tudo para continuar conquistando o mundo e ganhar cada vez mais fiéis para sua máquina celestial.

As também britânicas (e relativamente desconhecidas) Dionne Bromfield e Rox ficaram visivelmente felizes com o “calor” do público, satisfeito com o line-up coerente do festival. Ambas tiveram nos covers seus melhores momentos: Dionne cantando a versão comportada de “Fuck You” de Cee-Lo Green e “My tears dry on their own” de sua madrinha Amy Winehouse, e Rox com “Only Girl” de Rihanna. Dionne, mesmo tão nova, passou ter mais potencial, enquanto Rox fez uma apresentação de respeito mas genérica (atrapalharam também as projeções de gosto duvidoso que se repetiam em seu show). Seu Jorge, único brasileiro do Festival, apareceu num terno vermelho impecável e fez uma apresentação animada apesar de soar deslocado entre Florence + the Machine e Bruno Mars.

5 Responses to Florence + the Machine arrebata público em festival bem sucedido

  1. LeNo Gravatar disse:

    No RJ tb tivemos muitos, muitos fãs da Florence. Outros tantos não foram pelo valor salgado do ingresso c/ outras atrações que não compensavam em pleno dia de semana e no pior lugar possível para chegar (final da Barra). Se fizerem 3 shows da Florence + The Machine no Circo Voador vai lotar e terá gente chorando pq não conseguiu o ingresso. Pode apostar! ;}

  2. Eric BriamNo Gravatar disse:

    Sites/blogs de cultura pop costumam ficar desinteressantes devido ao grande número de similares, mas são textos como esse que me fazem voltar a um site/blog, muito bem escrito e coerente ao assunto, não foi só mais um Ctrl + c e Ctrl + v , como na maioria dos outros… Parabéns!!

  3. LiNo Gravatar disse:

    Gostei do texto! Muito interessante a descrição da Florence e seu show. Nunca tinha pensado dessa forma, embora faça todo sentido. Fui ao Summer Soul Festival pela Florence e não me arrependo, embora tenha achado o show muito mais curto do que o previsto. Agora nos resta esperar por um show só dela, em um local que valorize o instrumental da banda. Não é qualquer um que leva uma harpa para o palco, não é?

  4. DoraNo Gravatar disse:

    Gosto demais do Seu Jorge, mas Florence irradiou carisma, docilidade, parecia um arco-iris ofuscando todo o resto. Lindas músicas!!! Sua resenha me ajuda a expressar o que não consigo em palavras. Obrigada!.

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