Análise: The xx faz show sublime em evento disfarçado de festival

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Fotos de Ana Laura Leardini exclusivas para o Aos Cubos. Mais fotos no nosso tumblr.

O Popload Gig foi uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos anos no circuito de shows alternativos em São Paulo. A “marca” encabeçada pelo jornalista Lúcio Ribeiro já trouxe shows maravilhosos como Feist, Andrew Bird e Wild Beasts e só em Novembro ainda trará Devendra Banhart e a hypeadíssima Solange “Irmã da Beyoncé” Knowles. Quando Lúcio comprou publicamente a briga para trazer a desejada e inédita banda britânica The xx para um show pequeno e fechado, e não para um grande espaço aberto de algum grande festival (o Planeta Terra?) que também brigava pela banda, se transformou automaticamente numa espécie de anti-heroi. Assim, um show que esgotaria facilmente os 7 mil ingressos de um Credicard Hall se fosse vendido pelo preço normal de shows (200 a inteira), teve 3800 pessoas num HSBC Brasil com capacidade para 4500 pessoas por um preço considerado abusivo por unanimidade (400 reais a inteira).

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Pra justificar o preço salgado, foi construído em torno dos alicerces do The xx o primeiro Popload Festival, cuja escalação deixou muito a desejar, só foi revelada poucos dias antes do Festival e ficou bem longe de justificar os 400 reais do ingresso. Saindo como um Robin Hood meio às avessas, Lúcio Ribeiro conseguiu o objetivo de proporcionar uma versão intimista do sensacional show do The xx (headliner dos maiores e mais importantes festivais do mundo) mas para um público bem menor do que o show poderia ter. Sorte de quem viu tão de perto aquele espetáculo inacreditável de delicadeza melódica, luzes e emoções, que provavelmente ficará por um bom tempo na memória dos fãs privilegiados da banda que puderam estar ali (eu por exemplo, só pude assistir o show porque ganhei uma promoção).

Ao jogar o Camarote VIP com direito a Open Bar e ingresso a 800 reais a inteira (!) para trás da pista, Lúcio honrou suas críticas às terríveis Pistas Vips que se alastraram no Brasil e já estragaram tantos shows por aí, mas talvez não tenha admitido em nenhum momento que a pista “Normal” do Popload Festival era na verdade uma imensa Pista Vip.

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Silva

O evento surpreendeu por criar um pequeno palco na antessala do HSBC Brasil onde se apresentaram o capixaba Silva, os paulistanos do Aldo e Joe Goddard, integrante do Hot Chip. A escolha de Silva não poderia ter sido mais acertada. No que foi o último show dessa turnê em São Paulo segundo a página oficial do músico no Facebook, (o também Lúcio) Silva mostrou porque é um dos artistas mais promissores da “novíssima” música brasileira. Impecável ao vivo e acompanhado do excelente baterista Hugo Coutinho, Silva fez um show envolvente e dançante que combinava em todos os sentidos com o headliner The xx. Passou por quase todo o disco de estreia “Claridão”, se concentrou no som eletrônico evitando a orgânica “A Visita” (que costuma ser catártica em seus shows), e talvez tenha errado apenas numa bela versão de “Posso”, completamente diferente da versão do disco mas que, pela execução silenciosa, deixou transparecer o quanto as pessoas naquele espaço estavam conversando alto e não ligando muito pro ótimo show que acontecia ali. Olhando um pouco eu percebi que era integrante da meia dúzia de pessoas que estavam cantando alguma coisa.

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Yuck

Seria uma decisão ousada, porém muito mais eficiente, ter passado o Silva para o Palco Principal. Os britânicos do Yuck, chamados em cima da hora no meio de uma maratona de shows e sem o vocalista Daniel Blumberg que saiu da banda no começo do ano, fizeram um show bem preguiçoso e desinteressado (mesmo pro parâmetro shoegaze). As belas texturas sonoras dos discos ficaram em casa e hits como “Get Away” passaram de pérolas nostálgicas pra quase-covers genéricos. Perto do palco dava pra contar nos dedos o número de pessoas demonstrando interesse no show (e dá-lhe aplausos protocolares). Mesmo o The Virgins, que cancelou sua participação e cujo clima groovy combinaria um pouco mais com o clima proposto pelo “Festival” do que o show do Yuck, também não atingiria exatamente a mesma fanbase do The xx e essa escalação torta não parece ter saído da cabeça de um visionário da cena como o Lúcio Ribeiro. Por quê nenhuma outra atração eletrônica-semi-minimalista-indie-pop além do Silva? Obviamente a questão aqui foi fechar as contas levantadas pra trazer o elefante The xx e suas 5 toneladas de luz, mas duvido que com o cachê do Yuck não seria possível trazer qualquer atração que tivesse mais o perfil do festival, mesmo que o Yuck tenha se apresentado como se estivesse tocando de graça.

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Um pouco depois das 23h entraram Romy, Oliver e Jamie recebidos por histeria completa da plateia, histeria que em teoria não combina com o estilo conciso da banda, mas que funcionou muito bem num show que foi uma avalanche de sentimentos. Acredito que a pergunta principal na cabeça de todos os fãs da banda era: como transportar para um show tão grande e com pessoas levantadas e inquietas o clima de discos tão baseados no silêncio e na sutileza? E eles não só conseguem transportar o clima desses discos pro palco como também expandir essa sensação e traduzir ela muito bem numa espécie de imersão coletiva hipnótica.

É um jogo ambicioso e intrincado.

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Romy na guitarra, Oliver no baixo, Jamie no seu conjunto assustador de drum machines, teclados, marimbas e afins que mais parece um trio elétrico. Movimentos coreografados e o não-casal Romy e Oliver duela no centro do palco. Luzes (Deus, as luzes) formam ângulos, pirâmides e letras “X” de onde menos se espera. Projeções em camadas de raio laser cortam o ar com estradas de luz. Ao invés de incentivar um sing-along fácil de suas músicas (conhecidas de cor por todos ali presentes) a banda muda o número de batimentos por minuto inesperadamente, às vezes várias vezes na mesma música. O baque é quase uma tradução física pras incertezas amorosas das letras do The xx.

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Quando as músicas cessam bruscamente ao invés de apenas serem modificadas, o público automaticamente canta os versos que deveriam ser cantados pela banda. Romy não sorri, Oliver não sorri, e ao invés de incentivar que as pessoas continuem cantando ou parabenizar o público pelo feito, Romy retoma a música exatamente de onde deveria, também inesperadamente. Outro baque. A banda nega uma saída catártica fácil e talvez por isso mesmo consiga um resultado tão hipnótico. E mesmo que seja possível ver uma quantidade absurda de emoções nos olhos daquelas figuras tão fora do contexto cool generalizado da música alternativa britânica e cujo sucesso mundial ainda é um espanto, os três estão sempre muito cientes da imagem que querem passar para o público. Imagem essa longe de ser poser: há uma sinceridade naqueles gestos e uma confiança grande o suficiente naquela estética para enterrar qualquer suspeita de oportunismo.

Os “melhores” momentos do show vieram nas músicas do primeiro disco “xx” (2010), que consegue ser bem mais acessível que o ainda mais sisudo e sem tanta força melódica “Coexist”, de 2012. Mas isso depende do que você considera melhor: a grande festa que virou a versão turbinada do hit do primeiro disco “Shelter” ou uma versão destruidora de “Missing” do “Coexist”, em que Oliver cantava “My heart is beating in a different way” como se sua vida dependesse disso, deixando o público catando seus caquinhos no chão.

Mas tanto espetáculo e perfumaria não se justificaria sem o fator que colocou o The xx numa posição tão privilegiada em primeiro lugar: as músicas. Você pode torcer o nariz o quanto quiser pro estilo da banda, mas (principalmente) o primeiro disco contém alguns pequenos clássicos da música recente, com melodias e letras tão definitivas que no fim das contas nem é tão espantoso que elas se transformem em pequenas bombas atômicas de emoção ao vivo.

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O público paulistano também teve a sorte de receber o último show da turnê do “Coexist” e ficou claro que Romy e Oliver estavam cantando com o resto das forças que tinham. Foi lindo ver Romy quase desmoronando nos versos de “Chained”: “Did I hold you too tight? Did I not let enough light in?”, por exemplo. Talvez Jamie também estivesse usando suas últimas forças, mas apesar de tão importante pro som da banda, ele fica escondido no seu castelo eletrônico a ponto de passar quase despercebido no show.

O bis teve a fantástica instrumental que abre o disco “xx”, “Intro”, e a música “Angels”, que abre o álbum “Coexist”. Romy humildemente agradeceu nome por nome todos os envolvidos na turnê de mais de um ano e meio, agradeceu visivelmente emocionada a recepção do público, e diante da histeria dele ganhou um beijo no rosto de Oliver, ação que deve ter gerado 3 mil lágrimas instantâneas no HSBC Brasil.

Assistir uma banda (no momento) gigantesca num lugar pequeno é sempre um privilégio, ainda mais com o espetáculo que o The xx traz na bagagem e todo o clima intimista que ele pede. Assisti-los num lugar imenso com quase total probabilidade de dispersão seria necessariamente uma catástrofe? Pausa para reflexão. Na injusta dança dos privilegiados levou uma experiência incrível quem conseguiu pagar por ela – como sempre – só os patamares ficaram mais altos dessa vez, dolorosamente mais altos. Ficou pra mim a dúvida se o valor seria o mesmo se o evento fosse reduzido para apenas o show do The xx com algum show de abertura. O tiro no pé óbvio é que o público não foi maior por causa das outras atrações (me apresentem dez pessoas que mudaram de opinião e compraram o ingresso pro festival depois que o Yuck foi anunciado e eu repenso essa situação).

Talvez não tenha sido o melhor momento para um primeiro Popload Festival. Um Popload Gig turbinado um pouquinho mais barato talvez esgotaria os 4500 lugares do HSBC Brasil. O que é “menos pior” (sic), vender um show incrível por 350 reais ou oferecer um Festival que não existiu de fato por 400? Não conheço o suficiente do mercado para opinar com propriedade, mas nesse texto tentei levantar algumas questões sobre o assunto. Todo o mérito pelo excelente show e longa vida ao Popload Gig.

One thought on “Análise: The xx faz show sublime em evento disfarçado de festival

  1. O primeiro deles, e mais interessante, é a movimentação de Romy Croft e Oliver Sim pelo palco. Romy é mais tímida, já Oliver está sempre acompanhando a batida como se caminhasse nos espaços criados pela música. Nos momentos instrumentais, a dupla se aproxima em passos sutis, mas sugestivos, criando uma imagem ao cenário de suas músicas. Já a luz, predominantemente bastante escura, intensifica a sensação de infinitude tão marcante no som da banda.

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